União Europeia avalia “arma comercial pesada” após escalada de tensões com os Estados Unidos

A União Europeia discute o uso de um mecanismo comercial de amplo alcance, apelidado nos bastidores de “bazuca”, após a França defender uma resposta firme a ameaças feitas pelo ex-presidente Donald Trump envolvendo a Groenlândia. O instrumento permitiria desde tarifas adicionais até restrições inéditas a investimentos de empresas americanas no bloco.

Janeiro 19, 2026 - 12:42
Janeiro 19, 2026 - 12:53
União Europeia avalia “arma comercial pesada” após escalada de tensões com os Estados Unidos
elEconomista.es

A União Europeia voltou a colocar sobre a mesa um dos seus instrumentos comerciais mais contundentes diante do agravamento das tensões políticas com os Estados Unidos. A iniciativa, defendida publicamente pela França, surge como reação a declarações atribuídas ao ex-presidente norte-americano Donald Trump relacionadas à Groenlândia, território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca e parte estratégica do Ártico europeu.

Conhecido informalmente em Bruxelas como uma “bazuca comercial”, o mecanismo faz referência ao Instrumento Anti-Coerção da UE, criado para responder a pressões econômicas consideradas hostis por países terceiros. Embora pensado inicialmente para proteger o bloco de práticas coercitivas de grandes potências, o dispositivo agora é citado como possível resposta a Washington, caso as ameaças se traduzam em ações concretas.

Se acionado, o instrumento permitiria à Comissão Europeia adotar uma série de contramedidas de grande impacto. Entre elas estão a imposição de tarifas adicionais sobre produtos importados dos Estados Unidos, a limitação de acesso de empresas americanas a contratos públicos no mercado europeu e, em um cenário mais sensível, restrições à compra de participações acionárias em companhias sediadas nos 27 Estados-membros.

Diplomatas europeus ouvidos por agências internacionais afirmam que a simples discussão sobre o uso dessa ferramenta já representa um sinal político relevante. “Trata-se de um recado claro de que a União Europeia está disposta a defender sua soberania econômica e seus interesses estratégicos, inclusive em temas territoriais sensíveis”, afirmou um alto funcionário europeu sob condição de anonimato.

A França tem assumido papel de liderança no debate, argumentando que a UE não pode tratar como retórica inofensiva declarações que envolvem pressões geopolíticas sobre regiões ligadas ao bloco. Paris sustenta que a Groenlândia, apesar de sua autonomia, integra o espaço europeu de influência e que qualquer tentativa de intimidação deve receber resposta proporcional.

Por outro lado, países tradicionalmente mais cautelosos em disputas comerciais, como Alemanha e Países Baixos, defendem uma abordagem gradual. Esses governos temem que o uso da “bazuca” possa desencadear uma escalada de retaliações, afetando cadeias globais de valor e setores sensíveis da economia europeia, como o automotivo, o tecnológico e o agrícola.

Especialistas em comércio internacional destacam que o instrumento foi desenhado justamente para ser usado como último recurso. “O poder da ferramenta está tanto na sua aplicação quanto na sua capacidade de dissuasão. Muitas vezes, o simples anúncio de que ela pode ser utilizada já força uma mudança de comportamento”, avalia um analista do European Policy Centre.

Até o momento, não há decisão formal sobre a adoção das medidas. O processo exige avaliação técnica da Comissão Europeia e aprovação dos Estados-membros, o que pode levar semanas ou meses. Ainda assim, o debate evidencia uma mudança de postura do bloco, cada vez mais disposto a usar seu peso econômico como elemento central de sua estratégia geopolítica.

Em um cenário internacional marcado por disputas comerciais, reconfiguração de alianças e crescente competição por áreas estratégicas como o Ártico, a discussão sobre a “bazuca comercial” reforça a mensagem de que a União Europeia busca deixar de ser apenas um ator regulatório para se afirmar como potência geoeconômica capaz de reagir com força quando seus interesses são colocados em xeque.

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