“Japão declara guerra aos ursos: Exército é mobilizado após onda de ataques fatais”
Com 12 mortos e mais de 100 feridos desde abril, o Japão vive uma crise sem precedentes provocada por ataques de ursos em áreas urbanas e rurais. O governo anunciou a mobilização das Forças de Autodefesa para conter os animais, equipando soldados com sprays repelentes, escudos e coletes à prova de balas. A medida, inédita na história recente do país, reflete a gravidade de uma situação que combina mudanças climáticas, escassez de alimentos e o avanço humano sobre o habitat natural dos ursos.
Tóquio, 5 de novembro de 2025 — O Japão está em alerta máximo. Uma onda de ataques fatais de ursos em diversas regiões do país levou o governo a tomar uma decisão drástica: mobilizar tropas das Forças de Autodefesa para conter a escalada de violência animal que já deixou 12 mortos e mais de 100 feridos desde abril.
Os militares, tradicionalmente voltados para defesa e missões humanitárias, serão treinados para atuar em áreas de risco, munidos de sprays repelentes, bastões, escudos, óculos de proteção, coletes à prova de balas e lançadores de redes, conforme detalhou o Ministério da Defesa japonês.
“Estamos diante de uma emergência pública que ameaça comunidades inteiras. A resposta precisa ser rápida e organizada”, afirmou o ministro da Defesa, Minoru Kihara, durante entrevista coletiva em Tóquio.
Uma crise fora do controle
Os ataques, antes esporádicos, tornaram-se quase diários em regiões montanhosas e até mesmo nos arredores de cidades médias. Câmeras de segurança flagraram ursos perambulando por bairros residenciais e invadindo propriedades em busca de comida.
As províncias mais afetadas incluem Akita, Hokkaido, Fukushima e Toyama, onde moradores relatam viver com medo constante. Escolas passaram a adiar atividades ao ar livre, e caminhadas em áreas rurais estão temporariamente suspensas.
Especialistas apontam que a crise é resultado de um conjunto de fatores ambientais e sociais. O aquecimento global, a diminuição da oferta de frutos silvestres e o envelhecimento das comunidades rurais — muitas das quais não têm mais caçadores experientes — criaram um cenário perigoso.
“Os ursos estão famintos e desorientados. Eles descem das montanhas em busca de alimento, encontrando cidades no lugar de florestas”, explica o biólogo japonês Kenji Watanabe, da Universidade de Hokkaido.
Militares como última linha de defesa
O envio de militares marca a primeira vez, desde a Segunda Guerra Mundial, que o Japão utiliza forças armadas para lidar com uma ameaça animal. A operação será coordenada com autoridades locais e especialistas em vida selvagem, e visa proteger comunidades sem recorrer a extermínios em massa.
Os soldados passarão por treinamento específico para capturar os animais de forma não letal, utilizando lançadores de redes e tranquilizantes sempre que possível. A ordem é preservar a vida humana — mas também evitar o colapso ecológico.
“Não queremos transformar os ursos em inimigos, mas precisamos impedir que mais pessoas morram”, disse o governador da província de Akita, Masaru Saito.
Reflexo de uma mudança maior
O aumento dos ataques é apenas um sintoma de algo mais profundo: a crise ambiental que o Japão enfrenta. O país, conhecido por sua convivência simbiótica com a natureza, vem sofrendo com ondas de calor extremo, redução das áreas florestais e desequilíbrio ecológico.
Os ursos, particularmente o urso-negro asiático (Ursus thibetanus japonicus) e o urso-pardo de Hokkaido, perderam boa parte de seu habitat para construções e plantações.
A escassez de castanhas e frutas silvestres — essenciais para o acúmulo de gordura antes do inverno — tem levado os animais ao desespero. “Estamos vendo o resultado de anos de desequilíbrio ambiental. O urso não é o inimigo; ele é o mensageiro do colapso ecológico”, alerta a ecóloga Naomi Fujimoto, da ONG Wild Japan.
Medo, adaptação e futuro incerto
Enquanto o governo se organiza, moradores tentam adaptar sua rotina. Pequenas vilas estão instalando sirenes automáticas e sensores de movimento, e grupos comunitários se formaram para patrulhar áreas de risco.
Mesmo assim, o medo é palpável. “Não dormimos tranquilos há meses”, conta Aiko Tanaka, moradora de Odate, uma das cidades mais afetadas. “Toda noite ouvimos barulhos nas lixeiras. Nunca se sabe se é o vento... ou um urso.”
A mobilização militar, embora temporária, abre um debate profundo no Japão sobre como equilibrar segurança humana e preservação da fauna. A resposta a essa crise pode se tornar um modelo internacional de convivência com grandes predadores em tempos de mudança climática — ou um alerta sombrio sobre o custo do avanço humano sobre a natureza.
O Japão, país de tecnologia e tradição, agora enfrenta um inimigo inesperado — e a batalha não se trava com armas, mas com inteligência, empatia e coragem.
A crise dos ursos é mais que um problema de segurança: é o espelho de uma nova era em que a sobrevivência humana e a animal estão mais entrelaçadas do que nunca.
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