UE defende reconfiguração da Otan e aponta enfraquecimento do eixo transatlântico sob Trump
Declarações da chefe da diplomacia europeia indicam que a Otan precisará assumir um perfil mais europeu diante do afastamento estratégico dos Estados Unidos. Tensões envolvendo a Groenlândia expõem crise de confiança entre Washington e aliados do bloco.
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deverá passar por uma transformação estrutural para responder a um novo cenário geopolítico marcado pelo distanciamento estratégico dos Estados Unidos em relação à Europa. A avaliação foi feita pela alta representante da União Europeia para Relações Exteriores, Kaja Kallas, ao reconhecer que a aliança militar precisa se tornar “mais europeia” diante da mudança de prioridades da Casa Branca.
As declarações ocorrem em meio a um período de forte tensão diplomática provocado por investidas do presidente norte-americano, Donald Trump, contra a Groenlândia — território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca e estratégico para a segurança do Ártico. O episódio aprofundou a crise de confiança entre Washington e seus aliados europeus, expondo fragilidades históricas da parceria transatlântica.
Segundo Kallas, a postura do governo dos Estados Unidos demonstra que a Europa deixou de ser o foco central da política externa norte-americana, o que obriga o bloco a repensar seu papel dentro da Otan. “A realidade mudou. Se os Estados Unidos estão olhando para outras regiões, a Europa precisa assumir maior responsabilidade pela própria segurança”, afirmou a diplomata, ao defender uma redistribuição de poder e liderança dentro da aliança.
A Otan, criada em 1949 com forte protagonismo dos Estados Unidos, sempre teve Washington como principal pilar militar, financeiro e estratégico. No entanto, nos últimos anos, o discurso crítico de Trump em relação aos custos da aliança e às contribuições europeias reacendeu debates antigos sobre dependência militar e soberania defensiva no continente.
O episódio envolvendo a Groenlândia foi interpretado por autoridades europeias como um sinal claro de que interesses nacionais dos EUA podem se sobrepor a compromissos históricos com aliados. Para analistas, o caso não representa apenas uma crise diplomática pontual, mas um sintoma de uma mudança mais profunda no equilíbrio de forças dentro da Otan.
Dentro da União Europeia, cresce o consenso de que o bloco precisa acelerar investimentos em defesa, fortalecer sua base industrial militar e ampliar a coordenação estratégica entre os Estados-membros. A ideia de uma “Otan mais europeia” não significa o rompimento com os Estados Unidos, mas sim a construção de uma aliança mais equilibrada, capaz de funcionar mesmo diante de um menor engajamento norte-americano.
Kallas também destacou que a adaptação da Otan será fundamental para responder a ameaças contemporâneas, como conflitos híbridos, ciberataques e instabilidades regionais próximas às fronteiras europeias. “A segurança da Europa não pode depender exclusivamente de decisões tomadas fora do continente”, pontuou.
O debate ocorre em um momento sensível para a ordem internacional, marcado por disputas de poder, reconfigurações de alianças e questionamentos sobre o papel das instituições multilaterais. Para a União Europeia, o desafio será transformar o discurso de autonomia estratégica em ações concretas, sem provocar uma ruptura definitiva com seu principal aliado histórico.
A discussão sobre o futuro da Otan, impulsionada pelas declarações de Kaja Kallas, reforça a percepção de que a aliança atravessa um ponto de inflexão. O caminho escolhido nos próximos anos poderá redefinir não apenas a arquitetura de segurança europeia, mas também o próprio conceito de cooperação militar no Ocidente.
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